Afinal, se não é tudo sobre sexo, é sobre o quê?
(A variation on sadness, 1957 - René Magritte)
Em meio a muitos pensamentos e reflexões é comum me voltar o velho incômodo de Magritte sobre a psicanálise: mas é tudo sobre sexo? Incômodo que ressoa na crítica de diversas figuras públicas, mais ou menos acadêmicas, mais ou menos conservadoras: vão das correntes políticas que assumem o ser humano como agente da transformação social até os mal informados, e dos mal intencionados, que recusam aceitar a proximidade da vida com o afeto, com o prazer e o desprazer. Então, o incômodo seria resistência ou ignorância? Calma…, não vamos por esse lado, vou tentar – para nós – abordar meu incômodo e não o das pessoas.
E, não foi sem muito prazer neste semestre que encontrei um livro cujo o título me era completamente aprazível, como doces com limão ou álcool: “Alguma vez é só sexo?”, de Darian Leader. Título que me ganhou por me encontrar, tão simplesmente como por si mesmo. Naquela tarde em que descobrimos um ao outro era completamente necessário que eu tomasse uma iniciativa e a minha resposta foi uma voracidade que me permitiu acabar com o livro no mesmo dia em que o levei para casa. Pondero, como bom moralista, que não estava repetindo aquele efeito das séries ou do ‘autocontrole’ que leva indivíduos a comportamentos compulsivos, antes disso minha ação era tomada de uma paixão – admito – que nem poderia durar muito. Então, dada a censura totalizante que a vida proporciona aos prazeres e o pudor imposto ao cotidiano (afinal também impõe limites ao desprazer), fiz exatamente o que deveria ter feito.
A partir desses relatos sobre a primeira leitura, alguns já até me perguntaram: 'e o que achou do livro'? E, eu gostaria de lhes dizer: ‘maravilhoso, durou o que tinha de durar’. Ainda, alguns me perguntariam do que ele fala que você tanto gostou? Eu, que já responderia isso mais entusiasmado: ‘afinal um livro que se assume ao contrário do que se faz, para chegar naquilo que a psicanálise tem de chegar – o verdadeiro âmago dessa ciência: o campo de tudo aquilo que responde ao sexual, seja a vida, a função, o desejo, a própria sexualidade e talvez ainda alguns trens a mais!’.
Por fim, imagino ainda a pergunta se esse seria um livro que recomendaria à outras pessoas. Prontamente, e já mais contrariado, lhes diria que 'não'. Afinal, que diferença faz para quem não encara a sexualidade como um sistema complexo de significados e quiçá das foucaultianas éticas de si 'pensar a psicanálise como um campo restrito aos problemas sexuais'? A psicanálise é, sobretudo, um espaço onde pode-se falar de tudo, inclusive fora do sexual. Então, para quê – afinal – serve pensar que a psicanálise fala apenas sobre sexo? Esse é um ponto no qual espero causar um leve estranhamento para quem leia o texto – pensando paralelamente comigo –, mas a meu ver é importante jogar algumas polêmicas sobre o pensamento do leitor.
Por conta disso, vamos fazer um outro caminho para abordar essa polêmica que quase emergiu, imagine comigo, por um momento: você vai a uma psicanalista (ou a uma psicóloga ou psiquiatra que assume abertamente uma orientação psicanalítica), e antes mesmo de estabelecer um vínculo, confiança, de estabelecer um contrato de trabalho ou mesmo de receber informações sobre o serviço que procura, e se visse obrigada a falar prontamente e sem recusas da sua vida sexual? Fazer uma psicanálise, no sentido de quem vai se consultar, é muito maior que isso. Por outro lado, e ao mesmo tempo, a psicanálise não se faz sem uma complexa e ampla compreensão acerca da importância e da extensão da sexualidade na vida, nos pensamentos e nas ações das pessoas a partir de suas próprias referências. Contudo, o cenário de como a psicanálise e os psicanalistas se inserem no mundo dos serviços, trabalhos, tratamentos e locais de acesso à saúde mental é bastante assistemático em nosso contexto atual (vejam que agora foi evitado dar continuidade a uma polêmica, quando digo que o contexto é ‘assistemático’, sobretudo por que é preciso manter certa intencionalidade nesse texto e não jogá-lo a um campo de aglutinação apenas de caos).
Retomando: pessoalmente (esse advérbio ainda merece um destaque pela sua beleza), acho isso tudo dramático. Não por um moralismo neoliberal que coloca a saúde mental, a qualidade de vida, a sustentabilidade, etc. tudo em uma mesma fatura do cartão e que por isso precisa de garantias. Sobretudo por que é necessário assumir que as garantias que temos nesse campo parecem com aquelas de quem aceita um trabalho em que durante a sua realização perde-se a consciência de quem se é fora dele; enquanto que na vida particular/privada/pessoal/… (passam a faltar palavras para estabelecer uma dicotomia dessas) perde-se a consciência de quem se é e do que se faz no trabalho. Mas o que fazer sobre isso? deve-se procurar garantias? Afinal, há riscos em participar de um trabalho desse tipo, e quais são?
Bom, algo que o campo da educação me ensina é que não é apenas a psicanálise que busca fazer um mapa do outro. A própria instituição escolar poderia ser a mediadora da infância, em sua realização plena como lugar de sustentação e instrução da vida que a criança deveria buscar conduzir no futuro. O por que ela é ou não é fica para outro texto. Contudo, justamente graças à capacidade da escola em sua vocação de educar é que se criaram diversas formas de registrar e pensar sobre o desenvolvimento daquelas que nela aprendem e trabalham. De certo modo, há algo nisso propriamente também do campo da Antropologia. Disciplina cada vez mais abandonada nos currículos escolares e universitários e para a qual farei como último suspiro desse texto um elogio.
Afinal, é a antropologia quem criou melhores condições de registros para praticamente todos os campos de saberes que lidam com observação humana, pois passa a considerar de forma crítica e sobretudo pertinente a participação do observador. Não por acaso, justamente Solange Faladé, quem reconheceu a importância da antropologia para a formação do psicanalista, que pergunta a Jacques Lacan sobre o fim de análise de um paciente de tipo esquizofrênico:
“Solange Faladé – O que pensar do final de uma análise num paranóico, se este final é a identificação ao sintoma?
J.L. – É bem verdade que o paranóico não apenas identifica-se ao sintoma, mas que também o analista identifica-se a ele. A psicanálise é uma prática delirante, mas é o que temos de melhor atualmente para nos resignarmos à incômoda situação de ser homem. Em todo o caso, foi o que Freud encontrou de melhor. E ele sustentou que o psicanalista nunca deve hesitar em delirar.” (Correio APPOA, 2004, p.17)
Eis aqui o ponto crucial para pensar no que a antropologia e a psicanálise tem a ver uma com a outra. Diz Lacan que a psicanálise não deve recuar diante da psicose, mas provavelmente o diz por que Freud, no século passado, não recuou diante de uma mulher que o mandou calar a boca para que ela falasse ao invés de ouvi-lo e sobretudo por que sinaliza que na prática não devemos recuar de escutar e avançar junto ao outro em seu dizer.
A Antropologia a meu ver, leigo e grosseiro, carrega esse desejo da descoberta do inédito, da destruição do insólito que a mente pôde estabelecer como pré-conceito para si; por que o encontro é uma produção e é sobre as condições dessa produção que trata o que o analista deve se preocupar, para que ela possua valor para o outro (o sujeito que se tenta falar na frente de alguém que assume esse saber da psicanálise).
Então, de fato não respondo quais as garantias ou do que se trata uma psicanálise, para além de um encontro intencionado por ambas as partes. Isso foi mais um desabafo, em meio a tantos problemas de pesquisa na contínua preocupação que tenho comigo e com quem encontro nesse lugar chamado “sessão”. Outra preocupação que em breve trarei é sobre a sala de aula…
BIBLIOGRAFIA E REFERÊNCIAS
(aquelas que inspiram e que mantém as letras com raízes em obras fora da cabeça)
CORREIO APPOA. Correio APPOA Edição 124. Porto Alegre, dez. 2023. Disponível em: https://appoa.org.br/uploads/arquivos/correio/correio124.pdf. Acesso em: 21 jun. 2025.
GHIRALDELLI JR., Paulo. História da educação brasileira. São Paulo: Cortez, 2015.
LACAN, Jacques. O seminário 3, as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LEADER, Darian. Alguma vez é só sexo? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2024.
Concordo 100% com sua descrição da Antropologia. Nunca é demais enfatizar o lugar dela mas ciências sociais.
ResponderExcluirSobre o título: enquanto a cultura/sociedade insistir em colocar sexo em toda relação, diretamente ou indiretamente, na repressão ou na instigação, na idealização ou na materialização, a psicanálise e provavelmente toda a psicologia e ciências humans, será toda sobre sexo. Estariam erradas se assim não fosse. Aos que acham isso ruim, que reclamem com os padres, pastores, ideologos, políticos, artistas e etc., não com os psicanalistas 😆.
Para mim o seu comentário lembra, pelo tom crítico do que a séculos é a relação de negação com o corpo e o sexo, aquela cena nazista de jogar livros na fogueira; mas ao mesmo tempo, acho que os psicanalistas precisam ser cobrados pelo que fazem com o nome da psicanálise afinal...
ExcluirEm algum momento vou trazer uma discussão sobre a relação de resistência e transformação histórica entre o corpo e o maquinismo, penso que terá muita relação com isso que você trouxe!