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Entre o ainda escrever em meio às ruínas: escrevendo sobre o recomeçar no fim de ano

Em meio às áridas paragens de fim de ano, resolvi avançar na leitura e na escrita de uma série de pendências. Uma delas era ler o artigo: “Escrever o luto, hospedar a íntima ruína”. Escrito pela psicóloga Maria Luíza Moraes e pela ilustríssima Psicanalista e Profa. Dra. Suely Aires. Maria Luíza Moraes é a autora, me parece que a inconteste ideóloga desse texto, que é um recorte da pesquisa de mestrado que está prestes a concluir na Universidade Federal da Bahia, sob orientação de Suely. Ouvi falar do trabalho de Maria Luíza pela primeira vez em novembro, quando estive na sala de trabalhos em que ela participou no Congresso do Outrarte. Era meu desejo conseguir colocar em texto algumas questões sobre migração e pertencimento. Afinal é algo transitivo a minha escrita, de vários lugares, então, um tema que foi se tornando cada vez mais necessário. E, onde mais eu poderia me ver e me sentir visto do que em minhas próprias palavras. Acontece que ao me deparar com não apenas o trabalho, mas ...

Em uma análise: qual a queda que se busca interpretar?

AVISO: ESSE TEXTO FOI  APRESENTADO NA JORNADA DE ENCERRAMENTO DO FÓRUM EM FORMAÇÃO DO CAMPO LACANIANO NO INTERIOR PAULISTA, REALIZADO NOS DIAS 5 E 6 DE DEZEMBRO DE 2026, NA UNESP - CAMPUS BAURU (SP).   Preâmbulo  Estou em Ouro Preto, amanhece aos poucos desde que cheguei nessa cidade. O som urbano ainda parece não existir, apenas os animais se manifestam. Olho para o espelho do quarto e me volto para a apresentação que farei em Bauru, dia seis, me parece ser dia de Santa Luzia, Santa dos olhos, mas percebo que será dia de São Nicolau, então é isso, agora começam os adventos para o natal. Interrompo a digressão. O crítico brasileiro Luiz Nazário (2012) endossa a partir da elaboração da figura do surrealista e diretor de cinema Luis Buñuel – muito conhecido por toda a sua obra, mas da qual Nazário também marca “L’age d’or” (1930) como a sua entrada bombástica no cinema – que a arte surrealista são como bombas atômicas na tela de cinema, o que evoca dois fenômenos: o da imag...

O tempo na ponta da língua

Os textos deste blog seguem um método, não uma inspiração. São tentativas de registros para capturar problemas emergentes no decorrer de minhas pesquisas e antes que eles se dissolvam no tempo, afinal nem tudo que se encontra ou pensa, se junta à tese. Mas até para compreender isso, é necessário certo método. Daí, o tom que emerge aqui é – com frequência – o da inquietação de quem tenta formalizar uma ideia lida, uma notação feita e até um rabisco. E, de fato, se a voz que mais se sobressai é a preocupada, o motivo vem justamente por ser preocupante o estado de quem vive escrevendo. Explicitado esse ponto, o texto surge em sua cena idealizada de leitura: uma manhã de domingo. É meu objetivo sair desse ponto e pensar em como é possível apresentar um problema interno, que involuntariamente veio a se constituir e quem sabe ter o prazer de relê-lo com a fruição que pode acontecer em uma manhã de domingo. Por que essa escolha? Bom, talvez isso possa ser respondido pela totalidade do texto,...

O texto das perplexidades

Cara leitora, o texto que se segue está repleto de bobagens, por isso esteja avisada que são um tipo particular - pela própria natureza das bobagens - de modo de se dizer sobre a vida. Segue-se: "Outra coisa é a cebola. Ela não tem interioridade. É ela mesma, a cebola,  o cúmulo da cebolidade. Cebolácea por fora, cebolesca até o centro,  poderia sem temor se olhar por dentro. (...) É isso a cebola: do mundo o ventre mais belo. Para glória própria de auréolas se enrola como novelo. Em nós - gordura, nervos, veias,  mucos e secreção. E a nós é negada a idiotice da perfeição."   (Wislawa Szymborska -  "A Cebola" In: [Meu coração em uma tarde de Domingo] (trad. Regina Przybycien e Gabriel Borowski, São Paulo: Companhia das Letras, 2020)      Bom, escrever por vezes parece eminentemente uma intimidade, mas é justamente com ela que preenchemos o mundo; por isso me parece que de forma mais ou menos indireta estamos sempre nos produzindo escrevendo textos...

Amarrando aquilo que escapa ao ser a(r)mado

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     Há muitos problemas para pensar no amor. Primeiro porque é um tema clichê – todos falam sobre amor – por que todos amam? Provavelmente, mas… então, é clichê por que é comum? Mas, por exemplo, o amor que é algo comum é universal? Não necessariamente, amar é algo bem diferente de uma condição universal, seja por que se amam de diferentes maneiras, tantas quantas possíveis, seja porque realmente existem muitas práticas ligadas ao amar.    E, poderia haver algo de importante no amor que não seja sobre a sua incontável multiplicidade ou da sua singular importância na experiência humana?      Talvez, e só talvez, por isso pode ser mais do que sobre relações e sim sobre histórias. Talvez amar, seja algo maior do que a atividade que o indivíduo – ou nós mesmos – podemos enxergar, seja por que é aquilo que acontece entre , aquilo que foi vivido em conjunto ou até aquilo que tenta-se contar; talvez seja justamente no registro, ou no esforço dele, ...

Fim do ser no fim do semestre: tempo e repetição

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(Salvador Dali – “Dali de Trás Pintando Gala de Trás Eternizada por Seis Córneas Virtuais Provisoriamente Refletidas por Seis Espelhos Reais” – 1973) O custo de um pensamento Esse texto não é apenas um respiro, é mais parecido com um exercício de respiração. Desde que se tenha em vista algo com o incômodo comparável a quase se afogar ao conseguir respirar enquanto se treina prender a respiração de baixo d'água. Como resultado, me parece que a parte mais interessante do texto está em percorrer justamente esses incômodos. Então, prezada interlocutora, fica o meu voto de que possa chegar até o final. Ponto de vista Nos últimos tempos percebi que seria necessário abrir mão de parte do tempo que dispunha a compromissos para criar melhores condições de pensamento. Claro que essa é uma posição arriscada nos tempos atuais: quem espontaneamente pensa ser bom abrir mão de algo? Mais ainda para uma atividade tantas vezes julgada, implicitamente, tão fútil quanto o pensar. Mas afinal, nessa so...