Entre o ainda escrever em meio às ruínas: escrevendo sobre o recomeçar no fim de ano

Em meio às áridas paragens de fim de ano, resolvi avançar na leitura e na escrita de uma série de pendências. Uma delas era ler o artigo: “Escrever o luto, hospedar a íntima ruína”. Escrito pela psicóloga Maria Luíza Moraes e pela ilustríssima Psicanalista e Profa. Dra. Suely Aires. Maria Luíza Moraes é a autora, me parece que a inconteste ideóloga desse texto, que é um recorte da pesquisa de mestrado que está prestes a concluir na Universidade Federal da Bahia, sob orientação de Suely. Ouvi falar do trabalho de Maria Luíza pela primeira vez em novembro, quando estive na sala de trabalhos em que ela participou no Congresso do Outrarte.

Era meu desejo conseguir colocar em texto algumas questões sobre migração e pertencimento. Afinal é algo transitivo a minha escrita, de vários lugares, então, um tema que foi se tornando cada vez mais necessário. E, onde mais eu poderia me ver e me sentir visto do que em minhas próprias palavras. Acontece que ao me deparar com não apenas o trabalho, mas com o artigo, percebi que algo ali faria sentido de ser visitado.

Passo então à análise do artigo, que estruturei em três movimentos:

  1. Uma observação de sua forma e conteúdo (análise);

  2. Um deslocamento para poder lhe interrogar (crítica);

  3. E, por fim, antes de ser exaurido pelo texto, uma parada (elogio).

Pode parecer presunçoso de minha parte dar um tratamento desses para o texto e trabalho de alguém que é no máximo uma colega de um grupo bastante amplo do qual participo já há alguns anos, contudo, acredito que caso a leitora dessas palavras que transformo em texto decida por ler o artigo – fantasio eu – que pode perdoar a presunção e até participar direta ou particularmente do que levantam Maria Luiza Moraes e Suely Aires. Ainda mais dado o momento do ano em que estamos.

O texto se organiza a partir de seis seções, resumidamente: I. a relação da escrita e o luto; II. a posição do estrangeiro como escritor; III. a posição do estrangeiro como escritor enlutado; IV. a articulação de dois textos de Sigmund Freud (“Luto e Melancolia” e “O infamiliar”/ “O estranho”) para abordar uma perspectiva entre o estrangeiro e o luto; V. a escrita como o lidar de uma perda; VI. o elogio da escrita da perda. Contudo, a minha leitura me lança a propor coisas ao texto de modo que acredito ser possível destacar dele três grandes temas (o que não são necessariamente três seções): 1. a condição humana da escritura; 2. a escritura entre o ser e o seu avesso; e 3. a escrita como a técnica.

Esses três temas possuem alguma especialidade espacial. Refletem antes algo que já estava procurando, e que pude encontrar caminho com o artigo. Afinal, a condição humana é de uma constante ruína à medida que caminha em uma história que só pode fazê-la, onde o refazer não cabe e nem é uma possibilidade. Apesar disso, é possível escrevê-la. Com isso, e antes de qualquer ideia de reflexo de si em um espelho, cria-se a duplicidade do mundo, aquele que se vê e aquele que é lido, o familiar e o estranho se constituem em um instante, sem nem precisar ser chamado ou ritualizado. Desse modo, a escrita já se mostra como um ritual, ou aquilo que dá a ele as condições de o ser, enquanto que a vida se torna o seu próprio avesso e que passa a exigir ser, portanto, ritualizada.

Bom, como já dito, o artigo se divide em seis seções (além das referências bibliográficas) ao longo de 12 páginas. O que a princípio poderia sugerir falta de coesão pelo excesso de paradas, surpreende em organização, não é custoso ao leitor emocionar-se com frases e citações que parecem depoimentos, quase confissões ao leitor:

“O que pode ainda realizar a escrita, quando a planura da vida sofre uma quebra?” (p.330)

“Escrever para lembrar?”, pergunta-se, ao passo que ensaia uma resposta na escrita: “não para me lembrar, mas para combater a dilaceração do esquecimento” (Barthes, 1977–1979/2011, p. 110)”. (p. 330)


"Noemi Jaffe (2021), na radicalidade da perda de sua mãe, localiza a escrita como uma zona de descoberta, em que “alguma lógica, ainda que absurda, vai se perfazendo” (Jaffe, 2021, p. 27). (p. 330)

“a confissão de que, mesmo passado o tempo, mesmo passados anos, ainda diz “Boa noite, Pa, dentro da sua cabeça, antes de dormir, e ele ainda responde, boa noite, meu amor” (Timerman, 2023, p. 116)” (p. 330-331)


“a elaboração de uma lista de medos: “formolização. Miocardite. Ninguém aparecer. Enterrar a Minha Outra Filha” (Ferro, 2018, p. 82)” (p. 331)


O texto reúne esses espaços íntimos, onde na mão de diferentes viventes confessa o trêmulo pesar da consciência sobre a escrita. Essa experiência ao mesmo tempo que desenvolve o tema do texto por que coloca o leitor a uma íntima questão sobre a sua construção, apesar das palavras de memórias em ruínas, cria a condição de um movimento de leitura romanceada que afasta o problema científico. Esse retorna, talvez com alguma morosidade (que não deixa de ser um caminho curioso a se percorrer) a partir da quarta seção, onde é apresentado o infamiliar/estranho a partir da visão do morto. Maria Luiza Moraes e Suely Aires trazem o problema de como a escrita torna-se uma forma de lidar com as marcas do luto, onde as confissões continuam:

“ “quanto é que falta?, ouço ainda. Viro-me de repente e só o lugar vazio, o silêncio mais intenso, o sítio das palavras vago em cada linha de claridade, em toda esta luz. Invento, e digo falta pouco, falta pouco” (Peixoto, 2015, p. 32).” (p. 336)


Porém, sem dúvida o clímax do texto parece-me ser a entrada na seção V, quando é retomado o dizer de Michel Foucault: “ “a morte é, sem dúvida, o mais essencial dos acidentes da linguagem (seu limite e centro)” (p. 49)”. Ideia essa fundamental, que realinha o texto ao caminho de sua abertura – junto a sua epígrafe de Roland Barthes: “O “Trabalho” pelo qual (dizem) saímos das grandes crises (amor, luto) não deve ser liquidado apressadamente; para mim, ele só se realiza na e pela escrita” – não por acaso está perdida no texto, não é possível saber se ela faz referência ao texto “O belo perigo”, traduzido pela Editora Autêntica em 2016 ou se é de outro texto, como indica a nota das autores de 1963/2009 (originalmente de 1963 e publicado em português em 2009). 

E, que belo acaso, o leitor encontra no caminho final do texto: perdendo o equilíbrio entre a leitura e aquilo que a escrita, a revisão e a editoração da própria revista (algo tão comum) não conseguiram formalmente sustentar. As supostas falhas textuais caminham junto com as letras que se aglutinam em palavras. Assim, começam a representar a perda de tudo aquilo que se disse calmamente nas seções anteriores sobre a perda da intimidade do falar a própria língua, do dizer da constatação da ausência no mundo, da reverberação daquilo que não tem mais retorno. E, como que de repente, diante da explosão de menções a Foucault há seguinte frase: “ “alguma coisa que não tinha visto inicialmente” ” se liga a “ “Orienta-te rapaz. Eu oriento-me, pai. Não se preocupe. Eu também sei, eu também consigo. Eu oriento-me, pai. Não se rale. O trabalho não me mete medo. Esteja descansado, pai” ” e com: “Entre as tensões e as insignificâncias, algo, do íntimo de um luto, vai se realizando na/pela escrita”. E, o texto acaba.

Não é a princípio uma leitura longa, mas valorosa, pois é um texto que permite dar ao modo de cada leitor o valor a ele. Parece ao fim que se retorna ao começo, os últimos parágrafos da seção VI poderiam ser uma espécie de aviso do que se imporia ao olhar. Mas é um grande mérito que a leitura e o campo semântico se encontrem nesse caminhar de um incômodo ao alento de um aviso sobre ele. Talvez para começar a pensar sobre as questões de migração e pertencimento esse tenha sido um texto interessante.

Contudo algo em paralelo me acompanhou ao longo da leitura, que me parece fundamental quando se pensa no estranhamento ou na sensação de deslocamento diante da infamiliaridade e da inquietação. Desde o início parece que a perda e o escrever caminham juntos, e até que ponto isso seria comparável a uma grafização ou um registro puro mais do que a relação do ser com o amor. Seria possível um dia a escrita sem o amor – o apego – à própria vida ou ao que quer que seja isso que se chama de amor? Há vários desdobramentos disso, pois se pode escrever para um morto tanto quanto para alguém vivo, afinal não é necessário que a escrita chegue em alguém e sim que ela se faça mediante a um alguém. Afinal, aonde mais para além das próprias letras e palavras pode-se o ser se sentir visto?

* * *

Agora, me parece de modo muito modesto surgir outra pergunta – não apenas para o artigo, mas sobretudo para o caminho de trabalho e pesquisa que realizo – sobre o quão longe é possível chegar na escrita até que seja necessário um retorno, seja à memória ou a língua, onde isso se dê menos fragmentariamente e mais como um gesto unificado?

Obs. O artigo de Maria Luiza Moraes e Suely Aires, encontra-se na revista “Terceira Margem”, nesse link: https://revistas.ufrj.br/index.php/tm/article/view/67056.

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