Em uma análise: qual a queda que se busca interpretar?

AVISO: ESSE TEXTO FOI  APRESENTADO NA JORNADA DE ENCERRAMENTO DO FÓRUM EM FORMAÇÃO DO CAMPO LACANIANO NO INTERIOR PAULISTA, REALIZADO NOS DIAS 5 E 6 DE DEZEMBRO DE 2026, NA UNESP - CAMPUS BAURU (SP).

 

Preâmbulo 

Estou em Ouro Preto, amanhece aos poucos desde que cheguei nessa cidade. O som urbano ainda parece não existir, apenas os animais se manifestam. Olho para o espelho do quarto e me volto para a apresentação que farei em Bauru, dia seis, me parece ser dia de Santa Luzia, Santa dos olhos, mas percebo que será dia de São Nicolau, então é isso, agora começam os adventos para o natal. Interrompo a digressão.


O crítico brasileiro Luiz Nazário (2012) endossa a partir da elaboração da figura do surrealista e diretor de cinema Luis Buñuel – muito conhecido por toda a sua obra, mas da qual Nazário também marca “L’age d’or” (1930) como a sua entrada bombástica no cinema – que a arte surrealista são como bombas atômicas na tela de cinema, o que evoca dois fenômenos: o da imagem e o do olhar.

E, fazendo essa ponte com a arte, talvez haja mesmo algo de surrealista na cena em que os olhos de Édipo o fitam do chão. Cena canônica no meio psicanalítico, onde o Rei Édipo — descobre que matou seu pai, e teve quatro filhos com sua mãe (realizando assim a maldição que receberá ao nascer) — diante do horror de suas ações arranca os próprios olhos — como se isso ainda fizesse uma diferença.

Esse episódio é especialmente retomado por Freud (1996) em seu artigo de 1919 “Das Unheimliche” (“O Estranho”) e por Jacques Lacan (2008) na aula de 29 de julho de 1960 (Seminário VII).

Disso, e ainda pra não entrar tão rapidamente no campo psicanalítico, levanto duas questões: Por que os olhos? Por que a imagem evoca uma cena? Essa resposta poderia ser natural: “Por que a cena se vê”, tal como a imagem pode ser abordada como uma cena reduzida. Poderia-se também dar uma resposta a partir do surrealismo: afinal, uma parte básica da definição de surrealismo envolve a distorção da razão dos sentidos em sua totalidade, ou seja, em sua recepção e codificação. Portanto, o que se vê é quem vê, onde se é, é visto, etc. e disso tem-se uma inversão, tal qual a mensagem que revela o desejo do sujeito, vem invertida em relação a um pequeno outro, que é sobretudo Outro. 

Já à borda do palavreado de Lacan (2008) vale lembrar, que no Seminário VII, ele determina um tipo de ‘limite’, um Até, que envolve a compreensão da ordem dos Bens e da sua divisão. E, talvez seja necessário considerar “o inconsciente estruturado como uma linguagem”, e, por isso a linguagem como campo para assumir que na ordem daquilo que é visto, e afinal valorizado pelo olhar, justifica como os nossos sentidos, tanto quanto a significação, não seguem por qualquer caminho e nem vem de qualquer lugar.

Agora, pulam e surgem outras perguntas: seria a função do olhar algo apenas a ser interpretado no analisando? Não há algo sobre isso também no analista? Lacan no Seminário VII evoca algumas vezes a referência do olhar, mas como compreendê-la? A última produção de Luis Buñuel foi “Cet obscur objet du désir” em 1977, quando já encarava obcecadamente perder a visão. E, talvez como quando se vê cair o objeto da fantasia, haja algo que em 1960 Lacan também pôde ver e que pode nos reverberar como objeto, cena, crítica e ética.


***


No Seminário VII, na aula XV – “O gozo da transgressão” (aula: 30/04/1960), em que Lacan inicia falando do Marquês de Sade, surge um problema acerca prática clínica, que ficou denominado como “pastoral analítica”, pois trata dos ecos que a ideologia cristã possui entre os psicanalistas. Nessa aula são abordadas máximas cristãs, a primeira é o mandamento ‘amarás teu próximo como a ti mesmo’. Ao localizar essa fórmula, Lacan reconhece nela o problema da transgressão do gozo; o que coloca para o próprio gozo uma barreira, e por isso talvez uma dimensão tão desumana – e até perversa – no seu acesso. Se é necessário ‘amar o outro’, isso já funciona como uma Lei, e o ‘como a ti mesmo’ aprofunda o modo como isso deve ser feito, onde caso o sujeito lide com o próximo de modo diferente recairá nele a culpa – o que não deixa de parecer inevitável.

 Porém, se esse desvio, que é o próprio acesso ao gozo – ou seja, o gozo se dá por um desvio, diferentemente da satisfação da necessidade que é mais direta (como fome, sede, sono, etc.) – é inevitavelmente a própria transgressão, porque tanto o Outro quanto o Eu são colocados ideologicamente no mesmo lugar para o sujeito, pois correspondem a necessidade de representação e não de existência. Acontece que Lacan avança com esse problema com outra máxima, àquela de que ‘Deus fez o homem à sua imagem’. Ou seja, o Eu e o Outro são produzidos de modo tão similar que para o sujeito é quase insignificante a diferença que produz não apenas o indivíduo, mas também toda a sociedade, a não ser por um certo limite (Até).

Lacan, ainda, enfatiza e tensiona essa divisão à medida que desafia a tradição escrita e proverbial sobre a cena da crucificação: “Não nos desvencilhamos disso respondendo que o homem, certamente, pagou a Deus na mesma moeda (...) Se essa interdição tem um sentido, é porque as imagens são enganadoras” (p.235). Nesse ponto parece ser evocada uma certa confusão, que pode – mas não apenas – ser oriunda do imaginário da crucificação de Cristo, mas de onde os desejos de matar a Deus e a Jesus Cristo seriam uma repetição do desejo de morte do sujeito sobre seu desejo, e até sobre si mesmo. Mas de onde viria um desejo desse tipo? Será que caberia ser perguntado até que ponto é natural ou evolutivo existir um desejo desses?

Ao fim dessa aula Lacan evoca um trecho da versão de Juliette, de Sade, feita por Jean-Jacques Pauvert, que diz: “Emprestai-me a parte de vosso corpo que possa satisfazer-me um instante, e gozai, se isto vos agrada, da parte do meu que pode ser-vos agradável” (p.242). Essa passagem exemplifica parte do problema de localizar o objeto parcial, que de certo modo reconcilia o sujeito com o objeto de amor, e em seu pretenso estado de completude como objeto genital, problema que Lacan espera poder desenvolver no sentido de uma vinculação sádica ao Outro pelo sujeito, como parte importante da ‘psicologia do obsessivo’ em relação ao desejo que o permite “se impedir de aceder ao que Freud chama a certa altura de um horror por ele mesmo desconhecido” (p.243). O seu próprio desejo. Logo poderia o desejo de morte ter relação com o horror, culpa, vergonha, e outros sentimentos ligados a um desejo que não se conhece? Esse desejo poderia se dar de tal modo devido a esse problema do objeto parcial-ideal-amoroso?

Bom, esse massacre, mas sobretudo espetáculo que o sujeito simula sobre o próprio desejo, Lacan (2008, aula XIX: 25/05/1960) alerta e diferencia: “Não confundamos essa relação com a imagem privilegiada e conjunto do espetáculo” (p.300). Sendo que o espetáculo é normalmente tomado pelos resultados – ou ‘efeitos’ – da tragédia; ou como a organização do que acontece no palco no seu conjunto – uma espécie de mise-en-scène; ou, ainda, a ‘decadência’ promovida sobre o espectador. Ao contrário, Lacan enfatiza a posição do ‘ouvinte’, onde o outro, como grande Outro, como significante se esvai, assim, como um significante que morre

Desse modo, seja o analisando em relação às palavras de seu discurso, seja o analista em relação às essas mesmas palavras, aí encontra-se um caminho para olharmos o Seminário VII - a ética da psicanálise (1959 - 1960).


Prólogo 

Lacan fala sobre o espelho em diversos momentos, mas é no “Observações sobre o relatório de Daniel Lagache” (1960 - 61), na seção III, em que ele incita a questão do eu-ideal (je) e do ideal-do-eu (moi), onde aborda a origem e a confusão do Eu como um outro de um modo completamente diferente do que é proposto no relatório de Roma, mas não tanto como no “Seminário 10: a angústia” e talvez muito mais perto do que essa minha proposta tenta levantar sobre o “Seminário 7: a ética da psicanálise”.

Lacan diz que o sujeito se representa como Eu no espelho, vê a si mesmo como outro, o que lhe causa a mesma onipotência que acusa àquele que vê – que em primeiro, e que às vezes depois, não deixa de ser sua própria imagem. Disso surgem consequências, podem ser discretas ou mais aberrantes, podem inclusive levar a loucura de um objeto que parece não se encontrar mais, mas do qual o sujeito fala e vê. Seria isso algo que se perdeu ou que se procura? Me parece interessante encontrar outros recursos agora para perguntar por quê?


Referências

FREUD, S. O Estranho In. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996.


LACAN, J. Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.


NAZÁRIO, L. Luis Buñuel In. Ministério da Cultura et al. Luis Buñuel, o fantasma da liberdade. Belo Horizonte: Prefeitura de Belo Horizonte, 2012. 

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