Fim do ser no fim do semestre: tempo e repetição
O custo de um pensamento
Esse texto não é apenas um respiro, é mais parecido com um exercício de respiração. Desde que se tenha em vista algo com o incômodo comparável a quase se afogar ao conseguir respirar enquanto se treina prender a respiração de baixo d'água. Como resultado, me parece que a parte mais interessante do texto está em percorrer justamente esses incômodos. Então, prezada interlocutora, fica o meu voto de que possa chegar até o final.
Ponto de vista
Nos últimos tempos percebi que seria necessário abrir mão de parte do tempo que dispunha a compromissos para criar melhores condições de pensamento. Claro que essa é uma posição arriscada nos tempos atuais: quem espontaneamente pensa ser bom abrir mão de algo? Mais ainda para uma atividade tantas vezes julgada, implicitamente, tão fútil quanto o pensar.
Mas afinal, nessa sociedade onde todo e qualquer pensamento é transformado em mercadoria em toda sua forma e conteúdo, então, como ter tempo para pensar nos coloca em um lugar diferente daquele vigente no capitalismo que leva tão facilmente a avaliar a partir do lucro ou daquilo que se pode obter.
Bom, há aí uma questão interessante, como surge o ser? O nosso próprio ser: seria ele um derivado justamente daquilo que lhe falta, ou daquilo que há ao seu dispor? Se for isso, tudo isso pode ser também constrangedor. Se de repente, pensar cair na mesma função que trabalhar – por que nessa conjunção distópica nada do que eu poderia fazer teria a menor diferença política – a dilatação da atividade, a sobrecarga de tarefas, o atraso, o prazo perdido e a falta apontam que independente daquilo que o ser estiver fazendo, ele ainda pode estar além de todas as coisas, junto a elas e à sua procura.
Mas nada disso quer dizer também que o destino do ser seria apenas fazer ou desfrutar da existência, por que ela mesma é mais complexa do que apenas o primeiro plano em que o ser consegue se ver como indivíduo. A existência, assim como o próprio sujeito, abarca três coisas: uma política, uma ética e envolve trocas. Ou seja, mesmo a atividade de fazer um potinho – seja ele de argila, de caixa de ovo ou de massinha mesmo – não é apenas um fazer ou um saber fazer.
No fim das contas, esse ser é propriamente o sujeito – que é quem faz, quem tem ou há quem falta algo – , que existe no lugar em que faz: enquanto pensa, fala e escreve. Pois o sujeito existe no tempo e nas palavras, e precisa apenas disso; sem elas, não passa.
Mas como somos levados a sermos mais aquilo que consumimos do que aquilo que poderíamos vir a ser, a pensar, a fantasiar... o dilema 'be or not to be' parece que nunca foi tão sem sentido e tão radicalmente diferente da experiência cotidiana de si mesmo. E qual o problema? Qual a inquietação que essa confusa introdução traz? Que talvez o ser esteja prejudicado em suas condições de consistência e que com isso surgiram mais e mais formas de produzir socialmente aquilo que apresento – agora – de derivas do ser.
Concluída essa introdução, sigamos, sem perder de vista que temos outras duas derivas a percorrer e a ver.
Fim de semestre: a lição das 72 provas
No início do semestre passado tive o privilégio de assumir uma importante – para mim certamente bem importante – disciplina de psicanálise com duas turmas universitárias. Acontece que há todo um envolvimento pessoal meu com essa disciplina, além de viver um momento no qual percebo mais diretamente a importância que deixei com que o espírito da Educação ocupasse – afinal isso demandou um ativo esforço – a minha vida e como estar em sala de aula acentua a potência desse esforço de fazer e pensar.
Acontece que, invoco esse cenário porque nele me envolvo com um processo: após ter corrigido 72 provas escritas à mão, que me demandaram o processo de correção mais exaustivo que já passei desde o início de minha carreira docente, não consigo ser mais o mesmo.
Percebo o quão importante é poder ensinar, pesquisar, estudar, investigar, mas também e sobretudo encontrar com essa alteridade radical que se constitui pelo esforço de um aluno em dialogar com o professor sobre os seus resultados. E isso é transformador... por que me ensina, no ato mesmo do esforço, em me desconstruir para traduzir e avançar. E por isso penso tanto, o quanto as 72 provas me impressionaram pelo cuidado e humanidade com que foram feitas e mesmo com suas reflexões.
E, não sei, talvez já não seja possível fazer algo dessa magnitude novamente; desde convencer 72 pessoas a fazerem uma prova escrita e corrigir 72 provas escritas. O tempo é implacável, mais do que qualquer outra força ou recurso humano, e provavelmente esse método de avaliar se tornará obsoleto – se já não é – , talvez já na próxima oportunidade de conduzir uma disciplina… quanto mais uma de psicanálise.
Tenho particular empatia também com os alunos deste semestre, com os quais testei inúmeras formas de organização e apresentação de conteúdo. Até por isso, afirmo que os precedentes que realizei para tanto foram extremos. Porém, o maior sentimento, ao fim, foi de felicidade: mais uma vez pude encontrar turmas que buscaram compreender, antes de sentenciar; que puderam sustentar em suas dificuldades tão particulares escutar um longo sonho – quase roteirizado – por um semestre e tentar aprender algo em meio a isso.
A abertura que essas pessoas se permitiram é realmente um ponto importante sobre essa verdade que busca se falar aqui, mas há o outro lado, o daquele que fala (que para alguns: "não parava de falar, sem nenhuma noção e horário").
Se esse não é um texto sobre acontecimentos, e sim sobre os desdobramentos deles no sujeito, de fato, é por que as condições nas quais proporcionei a disciplina me exigiram investir em formas de me dilatar no tempo e evitar ao máximo a maior repercussão que o sujeito pode experienciar: o desaparecer.
Nesse sentido, é ótimo que no próximo semestre não seja necessário continuar dando aulas, um sinal de que faltará algo importante e ao mesmo tempo que poderei pensar mais. É engraçado que seja assim que algo pode advir para o lado daquele que fala e para aquele que escuta tanto quanto para cada um em si mesmo. Mas também é desesperadora a ideia de que vou trabalhar menos para ter mais tempo para pensar, só que algo disso precisa ser feito, afinal tudo isso, trata-se de uma investigação e para tal é necessário: tempo para ser outras coisas.
Tentando chegar a paralaxe: onde o ponto de vista se desfaz
Um dos modos com que Jacques Lacan fala do desejo é como uma dialética, um movimento de destornar (literalmente se deslocar em direção ao seu avesso) de ser algo e tornar-se em outra coisa. Um movimento repetitivo, em que o sujeito se perde e encontra a si mesmo infinitamente, pois está sempre a pensar em si como algo ou em falta. Por isso, me parece tão importante respirar, como um tempo para se afastar de tudo que acontece e até de poder perceber o que falta. Até por que no fim o intuito é voltar a ser isso que tanto [me] é importante ao sujeito. E, afinal não sou apenas um educador, há muitas outras posições e possibilidades a ocupar. E, é necessário ao seu tempo dar tempo à todas elas.
Do mesmo modo, o tempo nos coloca nessa desconfortável posição de nos aproximarmos de nós mesmos. Ou – na realidade – uma reaproximação, afinal é um olhar que se retorna sobre si, pois nunca fomos muito longe, invariavelmente estamos muito perto da própria pele e de tudo que se sente.
E, que retorno ou pecado terrível é esse que nos dias de hoje parece ser cada vez mais dar a si mesmo “tempo para pensar”?
... ... Meu objetivo era que esse texto se tornasse um tanto repetitivo. Quanto mais ele se fecha na ideia de que não se é algo, mas se ocupa de uma posição em relação a si que varia entre o ser e a falta, então, mais esse texto me permite falar sobre a possibilidade de que essa oscilação é mais fundamental do que onde – por fim – ela chega. Fundamental, não é uma boa palavra, que remete a uma anterioridade lógica, ao passo que interessa mais encontrar aquilo que é imprescindível, por que não se prescinde do sentir, do desejar. Em alguns casos, é até preciso ignorar, odiar ou amar o que se pensa, do que se sente. E aí estão – uma parte ou até apenas um recorte – sobre como podemos olhar para os Sentidos da Paixão: estamos radicalmente ligados a eles.
As paixões nos mostram algo que buscamos não pensar, porque nos mostram sempre algo de nossa incompletude. E, não há nada de ruim nisso, afinal somos essa particular história dos afetos que cabem em uma vida, mas sempre uma a uma.
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