Amarrando aquilo que escapa ao ser a(r)mado
Há muitos problemas para pensar no amor. Primeiro porque é um tema clichê – todos falam sobre amor – por que todos amam? Provavelmente, mas… então, é clichê por que é comum? Mas, por exemplo, o amor que é algo comum é universal? Não necessariamente, amar é algo bem diferente de uma condição universal, seja por que se amam de diferentes maneiras, tantas quantas possíveis, seja porque realmente existem muitas práticas ligadas ao amar.
E, poderia haver algo de importante no amor que não seja sobre a sua incontável multiplicidade ou da sua singular importância na experiência humana?
Talvez, e só talvez, por isso pode ser mais do que sobre relações e sim sobre histórias. Talvez amar, seja algo maior do que a atividade que o indivíduo – ou nós mesmos – podemos enxergar, seja por que é aquilo que acontece entre, aquilo que foi vivido em conjunto ou até aquilo que tenta-se contar; talvez seja justamente no registro, ou no esforço dele, que está o amor... que curiosamente parece ser um objeto de grande atenção do próprio capitalismo (palavra que vale ser marcada a medida que avança também a ideia corrente de 'mercado dos desejos').
No filme “Um brilho eterno de uma mente sem lembranças”, Joel – o protagonista – busca apagar suas memórias após descobrir subitamente que sua amada Clementine decidiu apagá-las sem lhe comunicar. Não retomo o filme para discutir dilemas dos personagens, mas há algo na ideia central do roteiro sobre o arrependimento de tomar a decisão em apagar as memórias de um amor e de uma luta contra isso que se segue. De fato, provavelmente apagar uma memória humana não seja exatamente possível, porque talvez não seja exatamente viável e as consequências seriam certamente bizarras, afinal, memórias humanas não são deletáveis. Contudo, o problema central me parece ser que o amor não está apenas no que aconteceu quando se pensa na pessoa amada, ou em uma situação, mas poderia estar o amor na realidade com que nos identificamos? Ou até, com o próprio universo, e sobretudo a História. E, digo aqui História com “H”, não porque acredite que é possível contar uma história única, mas afinal é justamente o conjunto de todas as histórias humanas vividas que poderia ser essa História. Então, como o próprio Inconsciente que não é único, mas um conjunto contraditório, me parece razoável aceitar que a História seria outro conjunto contraditório. Mas voltemos do macro para o micro...
Até aqui criei uma enorme polêmica e devo aceitar a minha ignorância de que me falta conhecimento para discutir afinal o que é ou como se deve escrever a ideia de história. Feito, caminho de volta à direção que me interessava que era afinal um outro olhar para se falar sobre o amor.
Minha inquietação é que certamente alguém deve ter feito isso de forma mais clara do que o psicanalista Jacques Lacan, mas no qual percebo – cada vez mais – influência em como vejo o tema, por que para além dessa bobajada que se constrói falando que “é difícil de ler Lacan” (digo assim por que as pessoas falam exatamente isso e ouvem coisas bem diferentes e até mesmo por que há pessoas que iniciam essas cadeias de forma bastante mal intencionada, mas reconheço que a dificuldade não é só sobre isso e que no fim nem se reduz, mas vale o parênteses) é certamente bem provocativa.
E, pode até parecer que é sobre as provocações para poder falar sobre amar, mas é aí em que há algo de similar entre estar vivo e em estar amando que é o quão provocado a pessoa que ama e a pessoa que permanece viva se sente. E, aqui sou radical, por que não acredito que alguém que esteja vivo tenha perdido isso, mas não caberá essa complexidade em meu texto, ele continua preso ao problema de ligar a reflexão sobre a vida com a do amor, sobre estar vivo e amar. Se Lacan me parece provocativo, seja por evocar no seminário 8 o “Banquete”, a figura bizarra de Sócrates, as caixinhas de amor grego – as agalmatas – e todo o contexto jocoso – e até ridículo – em que isso tudo isso surge na letra de Platão é por que de certa forma há um desprendimento meu em relação a isso que a psicanálise me dá, que não é dela, é antes meu e por isso que não se encerra. E o que acontece quando o amor acaba? Isso fica para outro momento.
Nietzsche disse que a resposta para essa questão sobre o amor está em Stendhal. Infelizmente não consegui ler ainda.
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