O texto das perplexidades
Cara leitora, o texto que se segue está repleto de bobagens, por isso esteja avisada que são um tipo particular - pela própria natureza das bobagens - de modo de se dizer sobre a vida.
Segue-se:
"Outra coisa é a cebola.
Ela não tem interioridade.
É ela mesma, a cebola,
o cúmulo da cebolidade.
Cebolácea por fora,
cebolesca até o centro,
poderia sem temor
se olhar por dentro.
(...)
É isso a cebola:
do mundo o ventre mais belo.
Para glória própria de auréolas
se enrola como novelo.
Em nós - gordura, nervos, veias,
mucos e secreção.
E a nós é negada
a idiotice da perfeição."
(Wislawa Szymborska - "A Cebola" In: [Meu coração em uma tarde de Domingo] (trad. Regina Przybycien e Gabriel Borowski, São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
Bom, escrever por vezes parece eminentemente uma intimidade, mas é justamente com ela que preenchemos o mundo; por isso me parece que de forma mais ou menos indireta estamos sempre nos produzindo escrevendo textos, mesmo que nem sempre da forma mais direta. Por exemplo, ao ler um artigo científico é possível rapidamente passar os olhos – e de preferência também com o pensamento – pelo texto, por temas, é possível escrever observações ao longo da leitura, ou enviar áudios para mim mesmo, até escrever resumos – quem diria – e incrivelmente ainda há uma infinidade de coisas possíveis, e dentre elas, um dia, me surgiram, como uma possibilidade muito interessantemente curiosa, os esquemas. A curiosidade – o brilho – se justifica por uma antiga crença de que justamente os meus esquemas temáticos/conceituais eram muito claros, organizados e por que não: perfeitos. Afinal, é quase uma arte, é algo que pode ser muito relaxante e ao mesmo tempo instigante de fazer. Além de toda a beleza que surge na observação do trabalho final.
Sigo com a digressão mais um pouco. Um dia, em meio a uma aula onde havia colocado um esquema no quadro negro – que acreditava como verdadeiramente claríssimo, e isso tudo nem era uma questão exatamente bem colocada – o pensamento veio – sem nenhum motivo para fazer isso comigo mesmo – e o segui: "esses esquemas, tão bonito isso tudo... a o Lacan tem esquemas também". Bom a simples constatação leva agora a um grande problema. Em primeiro lugar, não me acho capaz de tecer um comentário digno sobre eu ter pensado na comparação entre mim e uma figura tão histórica da psicanálise, mas o fato é que Jacques Lacan é conhecido por esquemas, matemas, grafos... 'desenhos' que ele apresentava durante as aulas, seminários, encontros, ... que realizava. E, o ponto central a saber disso é que ninguém exatamente entende esses desenhos, por que eles só ficaram famosos pela própria insistência do psicanalista em apresentá-los de algum modo. E, isso na minha forma de ver, é uma marca linda que surge no ato de dar aulas, é lindo uma lousa cheia: seja como resumo ou comentários que são tecidos no quadro durante uma aula... Mas, o fato, é que no mínimo esses desenhos são realmente algo complicado de entender.
Dando continuidade a repercussão do fato na sala de aula, a cena seguinte poderia ser imaginável como minha mente pulando em um abismo existencial ao perceber que estava sendo de dificílima compreensão enquanto era assistido. Sem dúvida a situação se resolveu, nada além da minha imaginação estava tão histérica; afinal é sempre importante lembrar: o pensamento não precisa acompanhar a ação. E, às vezes, é muito bom que não acompanhe. A partir disso – e sempre me dedicando mais empenhadamente em fazer os esquemas, resumos e comentários para mim e para a sala de aula – creio que mais do que apenas a prática, mas a forma como ela ganhou sentido foi me tornando uma pessoa mais preocupadamente coesa. Curiosamente isso parece ter muita relação com um avanço de certa didática minha no texto e até em sala de aula.
Essa prática, mais do que treino, vem de um cotidiano de eternos escreveres. São realmente longos os períodos que se colocam às vezes para escrever uma única ficha. Como sobre quando são as aulas que vou fichando e trabalhando do próprio Lacan. E, como ele é uma das figuras mais corriqueiras que me acompanham, justamente surge: "por que alguém tão espirituoso e com textos tão instigantes provoca tanto remorso na leitura?" Aí eu me lembro o por que é preciso continuar fazendo os resumos. Em suma, pensamentos que representam nem uma infimidade daquilo que me produz um dia, mas que possuem uma significância sobre o que é uma carga emocional muito grande. O que me faz observar – quase conclusivamente – que estar próximo a um texto seja em sua leitura, mas sobretudo em sua escrita pode te colocar mais próximo a ele do que se é capaz de perceber na imediaticidade do cotidiano. Isso, inclusive já me havia acontecido em outras circunstâncias e companhias, mas me surpreende ainda perceber quanta coisa vem junto com essas intimidades textuais.
Curiosamente, não é fácil escrever um texto com uma voz irônica e nem é exatamente agradável se ler ironicamente – teria de ver com mais cuidado qual é a palavra a ser posta sobre isso em realidade. Mas como de curiosidades o céu também já foi cheio de estrelas, talvez ainda seja algo notável surgir certa preocupação sobre a educação que mereceça certa notação. A ironia de algum modo exige um certo terceiro olhar e em alguma medida me questiono se esse olhar pode ser alcançado a partir de si próprio, mesmo que na dependência de outra companhia. Afinal, de onde vem essa companhia, se não do nosso próprio olhar?
Ótimo texto! É o problema clássico dos limites da introspecção. E a razão pela qual dependemos tão permanentemente da avaliação diversificada de outros, vivendo em comunidade. No isolamento, reina só as distorções de pensamento, como a crença de que nossos esquemas são sempre incrivelmente inteligíveis haha.
ResponderExcluirMe remete também ao Nietzsche quando desferiu golpe fatal à vasta literatura filosófica produzida por aqueles que "escreviam com os intestinos", isolados, grudados quase que permanentemente em suas cadeiras, fechados nos seus escritórios.