O tempo na ponta da língua

Os textos deste blog seguem um método, não uma inspiração. São tentativas de registros para capturar problemas emergentes no decorrer de minhas pesquisas e antes que eles se dissolvam no tempo, afinal nem tudo que se encontra ou pensa, se junta à tese. Mas até para compreender isso, é necessário certo método. Daí, o tom que emerge aqui é – com frequência – o da inquietação de quem tenta formalizar uma ideia lida, uma notação feita e até um rabisco. E, de fato, se a voz que mais se sobressai é a preocupada, o motivo vem justamente por ser preocupante o estado de quem vive escrevendo.

Explicitado esse ponto, o texto surge em sua cena idealizada de leitura: uma manhã de domingo. É meu objetivo sair desse ponto e pensar em como é possível apresentar um problema interno, que involuntariamente veio a se constituir e quem sabe ter o prazer de relê-lo com a fruição que pode acontecer em uma manhã de domingo. Por que essa escolha? Bom, talvez isso possa ser respondido pela totalidade do texto, de sua repercussão ou do que nele falta. Afinal, cada vez mais penso que a utilidade dessa escrita é seu próprio fazer e sentido que poderá ter de um diário do que foi o desenvolvimento da própria tese. Mas, então, do que trata esse texto? É, antes de tudo, sobre o ponto em comum que encontrei entre a falta no ser e o ato de ler. 

Bom, aí já são duas teses, que precisam ser apresentadas e mostrar por que a terceira é sobre o seu ponto em comum. 

A primeira tese, sobre a falta no ser, precisa ser apresentada com simplicidade. A falta no ser é o tempo. Quanto mais tempo o ser tem, menos tempo ele tem na verdade. Posso ser acusado de várias coisas, mas isso não é sobre o filósofo Martin Heidegger (aquele que escreveu o insultuoso “Ser e Tempo” e que por vezes é polemizado pelas suas relações com o partido nazista), mas é sobre a fenominicidade da coisa, da própria vida. E, isso não é ruim, por que isso marca o desejo, permite o desejo existir, se não fosse, provavelmente não haveria desejo, não haveria linguagem. Mas mesmo assim, talvez um dia não tenha existido desejo, mas tenha existido algo que propicia o ato de ler, um outro ato em realidade: o ato do som. 

Isso me leva a segunda tese também. Por que o ato do som envolve o corpo e por isso envolve aquilo de mais básico que pode-se isolar evolutivamente sobre ele: o prazer do alívio. Isso é completamente freudiano, mas recentemente encontrei essa ressonância inesperadamente em outro autor: José Ortega y Gasset que dedicou dois ensaios a introdução da leitura do “Banquete”, de Platão, que paralelamente abordam o prazer da leitura e o ser. Ortega y Gasset conduz o leitor a se deparar de outro modo com o que Freud já havia mostrado em “Dois princípios de funcionamento psíquico”, “Além do princípio de prazer” e sobretudo em “O estranho”, onde facilmente se pode perceber como os dois mundos que coexistem – o da vida psíquica e o da realidade externa – o são justamente por que no corpo tudo que acontece se sente, mas só como funcionamento da realidade psíquica.

Portanto, a relação que o ler e o emitir som possuem passa por algo que a espécie humana < soa quase surreal que isso continue fazendo sentido em ciências humanas > constrói justamente a partir da linguagem, como aquilo que abrange ao mesmo tempo: língua e comunicação. Afinal, é justamente a linguagem que permite a mediação do pensamento com o próprio corpo. É nela que nos alienamos, por ela sofremos e com ela criamos tudo. Impressionante como é realmente potente o que a linguagem permite fazer e quando se pensa seriamente nisso se percebe inclusive a importância que uma psicoterapia pode produzir na vida de uma pessoa. 

Talvez < por que isso nem consegue se propor como especulativo, apesar de ter sido um gatilho para querer dedicar à vida à filologia > a importância da palavra ‘língua’ é justamente por que ela comporta tanto o significado que abrange a escrita como o som –  e de fato ‘linguagem escrita’ e ‘linguagem falada’ parece menos usual na língua portuguesa. Acho isso lindo, o mundo interno é um mundo de poesia, de possibilidades, de possíveis textos, paratextos, contracapas, bancadas, estantes, corredores, labirintos … . Então, tanto quanto muitos que sabem falar o fazem por que esse é um ato fundamental na vida humana, talvez ler também comporte toda essa fundamentalidade.

Aproximada a leitura da fala, cabem os questionamentos: i. se a leitura tanto quanto a fala pode ser permeada de prazer? e ii.se a leitura também não é fundamental aos seres humanos?

< Aqui abro um pensamento. Inclusive para explicar que estou usando esses “< >” para inserir um discurso terceiro no texto, coisa que a língua portuguesa não permite, mas que curiosamente está presente em algumas línguas, sobretudo as mais antigas. E, afinal, o pensamento é que o leitor que lê, que gosta de ler, imagino que possa achar esses questionamentos engraçados também. Ler é completamente prazeroso, é desesperador, e até permite se alienar, apaixonar, sentir ódio das coisas. Ler é pensar como outra pessoa, é estar em contato com outra humanidade, ‘ler é viver outros mundos’ >

Mas feita essa aproximação, parece que é possível usar aquilo que une o ler e o falar pela língua como aquilo que constantemente morre no próprio indivíduo, a partir do ser: o pensamento que acaba a todo momento. E, às vezes, assustadoramente, o pensamento demora até a voltar. Mas o pensamento começa do mesmo modo que uma leitura começa, só que às vezes não é possível compreender isso tão imediatamente – do mesmo modo que às vezes não é possível compreender imediatamente um texto: um punhadinho de palavras –  e ainda assim é possível em alguma medida. Se o pensamento for visto a partir disso como um preâmbulo ou paralelo para a leitura, quando se dá o início de um pensamento é como um texto que passa a ser escrito, em meio a vários outros textos sendo escritos em momentos de diferentes continuidades.

E quando termina o texto? … 

O texto termina quando e  l e   t e  f  a   l     t       a. 

E, quando termina, ele permite até se perceber no depois dele. 


Bibliografia

FREUD, S. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico. In: FREUD, S. Obras completas: Edição Standard Brasileira. v. 12. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

FREUD, S. O estranho. In: FREUD, S. Obras completas: Edição Standard Brasileira. v. 17. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

FREUD, S. Além do princípio de prazer. In: FREUD, S. Obras completas: Edição Standard Brasileira. v. 18. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.

MILNER, J.-C. O amor da língua. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.

ORTEGA Y GASSET, J.  Comentário ao Banquete de Platão. Tadução de Felipe Dernardi. Campinas: Vide Editorial, 2024.

PLATÃO. O banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza, São Paulo: Editora 34, 2016.

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