Leituras jan-jun (2025)

Olá,
Essa é uma lista ainda que incompleta de leituras, das quais já pude dar algum tratamento e que se mostraram significativas, no percurso de estudos desse semestre jan-jun (2025):

Teorias e práticas feministas/ teorias de gênero
A necessidade de destaque desse grupo vem do debate acadêmico acerca da relação dos Direitos Sexuais com os Direitos Humanos, problema identificado em pesquisa anterior e por isso colocado antes mesmo da delimitação epistemológica de qual pensamento seria mais coerente para o diálogo da psicanálise com as teorias feministas e de gênero. Nesse sentido, essa categoria reforça o reconhecimento do elo entre sexualidade como predicado na definição de Direito como Propriedade inalienável do Sujeito (universal masculino), e sobretudo do Humano (universal genérico como homem). Abre-se a partir disso a necessidade de compreender que outras formas de escrita-de-si e do outro poderiam ser produzidas a partir da crítica jurídica à produção discursiva do sujeito.

Amia Srinivasan- O direito ao sexo
Heloisa Buarque de Hollanda (org.) - Pensamento feminista hoje: Perspectivas Decoloniais
Heloisa Buarque de Hollanda (org.) - Pensamento feminista hoje: Sexualidade no Sul Global
Judith Butler - Problemas de Gênero (pela terceira ou quarta vez já lendo esse livro kkkk)
Monique Witting - O pensamento hétero

Leituras em psicanálise
Essas leituras fazem parte do percurso de debates que venho fazendo dentro do campo teórico-clínico freudo-lacaniano acerca do complexo de Édipo. Não se trata de cair em uma posição esquizoanalítica ou desconstruída acerca do Édipo, mas de encontrar os elementos que lhe são realmente determinantes dentro dessa noção que figura às vezes como conceito, às vezes como ponto de crítica (pelo seu próprio estado de inacabamento conceitual). A problemática atual do debate recai em explorar outras noções, que na verdade precisam ser inclusive melhor exploradas na práxis psicanalítica. Nesse sentido, avanço a hipótese identificada na minha pesquisa de mestrado, que descreve o complexo de Édipo como articulação de três elementos de forma a constituir um complexo psíquico (marcas de memória mais ou menos inconscientes que possuem forte valor afetivo): ambivalência, bissexualidade e infantilismo. Nesse momento o fantasma (enquanto construção narrato-clínico), o nome-do-pai (como ponto-zero da estrutura neurótica e a função paterna como o lócus da articulação de negação); e o saber como condição-de-fazer (isso é um neologismo que surgiu aqui-agora) de proporção daquilo que é traduzido em uma estrutura mais ou menos em direção às condições dadas pelo nome-do-pai.

Antonio Quinet - Clínica da Psicose (publicação dos seminários da clínica freudiana)
Contardo Calligaris - A hipótese sobre o fantasma na cura psicanalítica
Jean Allouch - Psicanálise: uma erotologia de passagem
Serge André - O que quer uma mulher?

Novas descobertas em psicanálise (que se concentrou no pós-lacanismo)

Essas leituras estão reunidas em conjunto, pois abriram uma perspectiva um tanto quanto inédita em 2025 para mim: um pós-lacanismo. Mais do que criar uma psicanálise brasileira (o que não é necessariamente crítico ou subversivo em relação ao hegemônico já estabelecido na Psicanálise no Brasil), a possibilidade de um pós-lacanismo abre condições de renovação a longo prazo do paradigma com que trabalho, o freudo-lacanismo, uma vez que permite abrir um caminho a mais, ou seja, aquilo que faz avançar. A ideia de avanço vem atrelada à possibilidade de não ignorar um campo crítico que renovará a psicanálise em cultura e território brasileiro. A partir disso, terá de se ter todo o cuidado com o projeto de uma revisão e o que é uma proposta teórica. Sendo a psicanálise uma disciplina teórico-prática, esse tipo de alteração descrita deveria fazer crer em algo útil ao seu tempo ('melhor adaptado') ou em um modismo típico do sistema acadêmico-cientificista?

Clotilde Leguil - O ser e o gênero: homem e mulher depois de Lacan
Darian Leader - Alguma vez é só sexo?
Darian Leader - Gozo
Gabriel Tupinambá - Desejo de Psicanálise
Jamieson Webster - Sexo e Desorganização

Epistemologia e filosofia da práxis científica
Essa seção reúne um conjunto de leituras que poderiam ser resumidas em três pontos estruturais nos quais a metodologia do meu trabalho de doutorado tem girado: a historicização do conhecimento; a ordenação logológica (recuperando alguns neologismos derridianos); a manutenção do elemento constituinte, ou legal (pensando no sujeito como um elemento de autoria da estrutura) que mantém a ordem subjetiva da estruturação do trabalho científico como produção de arquivo-de-época (portanto político) em relação ao conhecimento nele organizado, e que, portanto, constitui ele próprio a partir de um elemento externo. O desenvolvimento dessa parte da metodologia, tem me levado a crer na importância do subjetivismo (o que é curioso e necessita de atenção) como um avatar do individualismo, funcionando como uma possibilidade para que o indivíduo se ligue a uma estrutura social, ainda, típicamente moderna.

Alexandre Koyré - Estudos de História do Pensamento Filosófico (em especial os textos "Observações sobre os paradoxos de Zenão"; "O cão constelação celeste, e o cão animal que late"; e "Os filósofos e a máquina").
Aimé Césaire - Discurso sobre o Colonialismo
François Dosse - A história à prova do tempo
Umberto Eco - A estrutura Ausente
Jacques Derrida - Mal de Arquivo
Jacques Derrida - Estados-da-alma da psicanálise: o impossível para além da soberana crueldade
Michel Foucault - As palavras e as coisas
Michel Foucault - O nascimento da clínica
Olgária Matos - História Viajante
Roland Barthes - Elementos de Semiologia

Humanidades
São leituras de temas gerais da história, principalmente grega, mas que foram até o momento muito complementares as leituras que venho realizando durante o semestre dos Seminários 7 (a ética) e o 8 (a transferência), do psicanalista Jacques Lacan.

Jan Bremmer (org.) - De Safo a Sade: momentos na história da sexualdiade
Miguel Spinelli - Educação e Sexualidade

Não sei se a melhor forma de compartilhar uma lista de leituras seria essa, por isso aceito sugestões.

__________________________________________________________________________Caso alguém, após ver essa bagunça, tenha alguma indicação fique à vontade para compartilhar!

Comentários

  1. Quais desses temas ou textos você tem sentido mais curiosidade ou interesse em ler, pessoalmente, para além das exigências do seu trabalho? E quais sente que tem sido mais relevantes ainda para compreender o mundo atual?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olha essa pergunta é difícil de responder, parece que a medida que a gente estuda uma teoria, ainda mais como na psicologia/psicanálsie em que isso nos leva interagir e pensar com o outro, ela se torna também um pouco a nossa visão de mundo. Mas não teria como negar para mim mesmo que a própria psicanálise me transforma constantemente.

      Nesse sentido, mais próximo da psicanálise eu gostei muito dos textos do Darian Leader e da Jamieson Webster. Só que esses autores 'novos', me apresentaram discussões em um diálogo mais próximo de problemas correntes, o que pode ser uma questão geracional, mas a medida que vemos que eles fazem isso ponderando suas leituras de Lacan para a clínica e não estão abandonando nem o campo lacaniano e nem a psicanálise me faz pensar que aqui nós também temos de fazer isso. Usar autorias brasileiras e não ignorar o que temos, de realmente ler e não de seguir aquilo que foi feito em outra época, em outro lugar, só por um nome ... afinal pensamos sobre problemas materiais, concretos e históricos!

      Mas além disso, os textos da Amia Srinivasan e da Judith Butler (sendo que ambas também tem um pé na psicanálise kkkk) me parecem completamente atuais. A Amia traz problemas de uma concretude que até me expantaram (veja a identificação), sobre: falar de pornografia, desejo, sexo, identidades em sala de aula. Como ignorar o que nós sentimos, o que o outro sente e ainda assim se manter em uma perspectiva de ensino, de crítica a si e ao outro... não acredito que nada disso é possível em vista que trabalho com psicanálise, educação e até um pouco antropologia. Então, o trabalho dela traz uma atualidade de como não esvaziar a relação e a transmissão na educação. O que me lembra uma crítica antiga da Maria Rita Kehl sobre o feminismo: como lutar por justiça e não esvaziar o espaço público e por consequência a relação do público-privado do sexual, do erótico e do afeto? Eu não sei, eu não sei, mas me parece importante lembrar que o sujeito moderno foi feito as custas de tentar excluir tudo isso e olha onde chegamos. Essas leituras feministas que vim realizando, não vão no sentido de endossar esse esvaziamento, pelo contrário, é necessário incluir o corpo, o desejo, o erótico, o sexual (o inconsciente) de volta ao circuito social, que o tenta excluir repetitivamente. O texto da Amia é bom por isso, ele condensa esas problemáticas, mas é preciso outras fontes para aprofundar esses problemas. Li um livro ótimo que não listei: "História da Histeria", de Etienne Trilat (traduzido pela nossa antiga professora Patrícia Porchat quando mais jovem). Digo que é ótimo, por que ele recupera todo um desenvolvimento, desde o medieval (em seu declínio) até o moderno, sobre a condição da relação do corpo com a doença mental e isso faz um bom sentido para pensar nessa questão da inclusão das minorias políticas e do que acontece nas relações e trajetórias de ensino com essas minorias.

      A Butler por outro lado é muito abstrata, mas eu acho ela também muito precisa ao localizar os problemas, por isso para uma perspectiva mais filosófica ou da crítica ao logos metafísico da ciência ocidental, é uma leitura super relevante (e em alguma medida em que seja comparável, mais didática do que ler Derrida kkkk).

      Por fim, diria que a leitura mais complexa e mais rica (por ter me causado mais inspirações) foi a releitura da "História Viajante" da Profa. Olgária Matos, por que tentando estabelecer um mapeamento do conhecimento que se organizou como estruturalista e pós-estruturalista você vê que há reflexões lá que estão sendo feitas junto com a crítica que forja essas espistemolgias (tão atuais que nos dão coordenadas da formação de um pensamento até mais crítico). Eu, sou suspeito para falar o quanto o trabalho da professora Olgária é relevante, mas retomando a história do estruturalismo para as aulas desse semestre e relendo o livro da professora eu vejo como uma leitura que nos ajuda a reencarnar como seres históricos.

      Tenho certeza que não te respondo, até por que queria continuar respondendo kkkkkkk

      Excluir
    2. Muito obrigado pela resposta! gostei muito do seu comentário e fico feliz de continuar podendo aprender com você meu amigo.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Poste inicial de memorandos

Afinal, se não é tudo sobre sexo, é sobre o quê?