É frio escrever em Julho de 2025

"Levantei os olhos para ver quem falava. E apenas ouvi as vozes combaterem. E vi que era no Céu e na Terra. E disseram-me: Solombra"                                                     (Cecília Meireles)


… e com isso segui. Seguindo:

A vida é cheia de prazos ao mesmo tempo que nós mesmos sabemos que temos um, sem saber quando ele chega. O fim de um semestre não é o fim da vida, mas o fim da história acaba todo dia e o que fazemos ao fim? Onde deixamos o futuro? No fim do semestre ou no fim que damos ao dia?

O tema da vida e da morte está presente na filosofia, nas religiões, na vida do trabalho, mas nos esquecemos constantemente deles. Somos forçados a esquecer? Esquecemos tanto que às vezes encontramos algo em sonhos, memórias escritas, em fotos, e até em lugares que paramos de procurar porque viram conteúdos. Só que sem aviso a vida continua aqui dentro, enquanto somos, lembramos e enquanto se lembram de nós também ainda somos. E, mesmo assim, a vida e a morte não são só isso.

De repente, cada um pode ser recordado – por que a vida produz lembrar e não só lembranças – de que tudo que chega ao fim e que tudo tem a sua importância. Continuar pode ser um peso para se carregar, uma luta e até um elaborar. Um dia “o condutor José del Carmen Reys subiu no trem da morte e nunca mais voltou”* e mesmo assim posso continuar recordando dos sentimentos que ele trazia ou que em voz alta trazíamos dele.

Ser pesquisador, ser professor, ser psicólogo, ser gente, é tentar conseguir ser algo que se escreve ou que se rescreve, é insistir. E, talvez – por que isso é só especulação sem preocupação de dissimular a mentira da verdade – que tudo na vida é re-sentir do ressoar daquele momento que sabemos que é onde sem saber vamos chegar.

Que mês terrível, que novo mês… mês de “vento forte e profundo, vento de acabamento e vento de fim de mundo”. Mas é o mês que me lembro, de gente que tanto me inspirou a ser parte importante de tudo que sou. Afinal, se somos mais que biologia é por que somos memória, que quem conta sou eu, você e quem mais falar daquilo que se lembra e de que quer se lembrar.


in memorian: Paulo da Costa Freitas, Paulo Cesar Menezes Freitas e de todos que nesse percurso de ensinar, escutar e estar vivendo pude um dia escrever ou falar.


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* retirado do poema “O pai”, de Pablo Neruda.
**retirado do poema “Descrição”, de Cecília Meireles.

Comentários

  1. Texto belíssimo, George. Não são todas as profissões que exigem simultâneamente que a gente trabalhe, reflita sobre o trabalhar e ainda a própria existência nossa e do trabalho. Você faz tudo isso muito bem e sinto que você está no lugar certo.

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