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O tempo na ponta da língua

Os textos deste blog seguem um método, não uma inspiração. São tentativas de registros para capturar problemas emergentes no decorrer de minhas pesquisas e antes que eles se dissolvam no tempo, afinal nem tudo que se encontra ou pensa, se junta à tese. Mas até para compreender isso, é necessário certo método. Daí, o tom que emerge aqui é – com frequência – o da inquietação de quem tenta formalizar uma ideia lida, uma notação feita e até um rabisco. E, de fato, se a voz que mais se sobressai é a preocupada, o motivo vem justamente por ser preocupante o estado de quem vive escrevendo. Explicitado esse ponto, o texto surge em sua cena idealizada de leitura: uma manhã de domingo. É meu objetivo sair desse ponto e pensar em como é possível apresentar um problema interno, que involuntariamente veio a se constituir e quem sabe ter o prazer de relê-lo com a fruição que pode acontecer em uma manhã de domingo. Por que essa escolha? Bom, talvez isso possa ser respondido pela totalidade do texto,...

O texto das perplexidades

Cara leitora, o texto que se segue está repleto de bobagens, por isso esteja avisada que são um tipo particular - pela própria natureza das bobagens - de modo de se dizer sobre a vida. Segue-se: "Outra coisa é a cebola. Ela não tem interioridade. É ela mesma, a cebola,  o cúmulo da cebolidade. Cebolácea por fora, cebolesca até o centro,  poderia sem temor se olhar por dentro. (...) É isso a cebola: do mundo o ventre mais belo. Para glória própria de auréolas se enrola como novelo. Em nós - gordura, nervos, veias,  mucos e secreção. E a nós é negada a idiotice da perfeição."   (Wislawa Szymborska -  "A Cebola" In: [Meu coração em uma tarde de Domingo] (trad. Regina Przybycien e Gabriel Borowski, São Paulo: Companhia das Letras, 2020)      Bom, escrever por vezes parece eminentemente uma intimidade, mas é justamente com ela que preenchemos o mundo; por isso me parece que de forma mais ou menos indireta estamos sempre nos produzindo escrevendo textos...

Amarrando aquilo que escapa ao ser a(r)mado

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     Há muitos problemas para pensar no amor. Primeiro porque é um tema clichê – todos falam sobre amor – por que todos amam? Provavelmente, mas… então, é clichê por que é comum? Mas, por exemplo, o amor que é algo comum é universal? Não necessariamente, amar é algo bem diferente de uma condição universal, seja por que se amam de diferentes maneiras, tantas quantas possíveis, seja porque realmente existem muitas práticas ligadas ao amar.    E, poderia haver algo de importante no amor que não seja sobre a sua incontável multiplicidade ou da sua singular importância na experiência humana?      Talvez, e só talvez, por isso pode ser mais do que sobre relações e sim sobre histórias. Talvez amar, seja algo maior do que a atividade que o indivíduo – ou nós mesmos – podemos enxergar, seja por que é aquilo que acontece entre , aquilo que foi vivido em conjunto ou até aquilo que tenta-se contar; talvez seja justamente no registro, ou no esforço dele, ...

Fim do ser no fim do semestre: tempo e repetição

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(Salvador Dali – “Dali de Trás Pintando Gala de Trás Eternizada por Seis Córneas Virtuais Provisoriamente Refletidas por Seis Espelhos Reais” – 1973) O custo de um pensamento Esse texto não é apenas um respiro, é mais parecido com um exercício de respiração. Desde que se tenha em vista algo com o incômodo comparável a quase se afogar ao conseguir respirar enquanto se treina prender a respiração de baixo d'água. Como resultado, me parece que a parte mais interessante do texto está em percorrer justamente esses incômodos. Então, prezada interlocutora, fica o meu voto de que possa chegar até o final. Ponto de vista Nos últimos tempos percebi que seria necessário abrir mão de parte do tempo que dispunha a compromissos para criar melhores condições de pensamento. Claro que essa é uma posição arriscada nos tempos atuais: quem espontaneamente pensa ser bom abrir mão de algo? Mais ainda para uma atividade tantas vezes julgada, implicitamente, tão fútil quanto o pensar. Mas afinal, nessa so...

É frio escrever em Julho de 2025

"Levantei os olhos para ver quem falava. E apenas ouvi as vozes combaterem. E vi que era no Céu e na Terra. E disseram-me: Solombra"                                                      (Cecília Meireles) … e com isso segui. Seguindo: A vida é cheia de prazos ao mesmo tempo que nós mesmos sabemos que temos um, sem saber quando ele chega. O fim de um semestre não é o fim da vida, mas o fim da história acaba todo dia e o que fazemos ao fim? Onde deixamos o futuro? No fim do semestre ou no fim que damos ao dia? O tema da vida e da morte está presente na filosofia, nas religiões, na vida do trabalho, mas nos esquecemos constantemente deles. Somos forçados a esquecer? Esquecemos tanto que às vezes encontramos algo em sonhos, memórias escritas, em fotos, e até em lugares que paramos de procurar p...

Afinal, se não é tudo sobre sexo, é sobre o quê?

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  (A variation on sadness, 1957 - René Magritte)      Em meio a muitos pensamentos e reflexões é comum me voltar o velho incômodo de Magritte sobre a psicanálise: mas é tudo sobre sexo? Incômodo que ressoa na crítica de diversas figuras públicas, mais ou menos acadêmicas, mais ou menos conservadoras: vão das correntes políticas que assumem o ser humano como agente da transformação social até os mal informados, e dos mal intencionados, que recusam aceitar a proximidade da vida com o afeto, com o prazer e o desprazer. Então, o incômodo seria resistência ou ignorância? Calma…, não vamos por esse lado, vou tentar – para nós – abordar meu incômodo e não o das pessoas. E, não foi sem muito prazer neste semestre que encontrei um livro cujo o título me era completamente aprazível, como doces com limão ou álcool: “Alguma vez é só sexo?”, de Darian Leader. Título que me ganhou por me encontrar, tão simplesmente como por si mesmo. Naquela tarde em que descobrimos um ao outro er...